BOZICA
B
Bozica
POR CARSON CLARK
QUEM ESCREVE ESTAS PÁGINAS

Carson Clark

Americano em Portugal desde 2021. Escritor de dias comuns.

Cheguei a Portugal num dia de Outubro de 2021 com duas malas, um computador antigo e a certeza de que precisava de abrandar. Tinha passado os últimos dez anos em Silicon Valley a escrever código e a viver dentro de calendários apertados. O meu corpo já não reconhecia o que era acordar sem alarme.

Os primeiros meses foram estranhos. Aluguei um apartamento pequeno em Cascais, perto do mar, e passava as manhãs a tentar entender o sotaque dos funcionários da pastelaria. O português que eu tinha estudado em aplicações parecia de outro planeta quando as pessoas falavam rápido, com as mãos, e com aquele calor que não se aprende em livros.

Uma vizinha chamada Dona Maria, já com setenta e poucos anos, foi a primeira pessoa que me convidou para entrar em casa dela. Tinha visto-me na varanda a tentar montar uma prateleira e apareceu com um martelo melhor e um café. Falámos durante duas horas. Ela contava histórias da filha que tinha emigrado para França nos anos oitenta, e eu ouvia sem conseguir responder muito. Quando saí, tinha nas mãos um tacho de caldo verde que ela insistiu que eu levasse.

“Não é preciso correr tanto, rapaz. Aqui o tempo é mais generoso.”
— Dona Maria, Novembro 2021

Comecei a escrever estas notas no início de 2022. Não era um diário no sentido tradicional. Era mais uma forma de guardar o que ia esquecendo: o som exacto da voz do peixeiro no mercado de Cascais quando ele dizia “isto hoje está vivo”, o cheiro a alecrim que vinha das varandas em Maio, a forma como as pessoas se cumprimentavam na rua mesmo sem se conhecerem.

Com o tempo, mudei-me para o interior, para uma pequena vila a quarenta minutos de Lisboa. Aqui o ritmo é ainda mais lento. O padeiro abre às seis e meia, o café da praça enche-se de reformados que jogam cartas até ao meio-dia, e as tardes de Verão são para a sombra da oliveira que tenho no quintal.

Não tenho grandes planos. Escrevo quando me apetece, cozinho o que me ensinam, e tento prestar atenção às coisas que mudam devagar: a luz do Inverno que entra pela janela da cozinha às quatro da tarde, o primeiro figo maduro em Agosto, o som da chuva no telhado de cerâmica.

Estas páginas não são conselhos. São apenas observações de alguém que decidiu que o mais interessante da vida pode estar nos dias em que não acontece nada de extraordinário.

ALGUNS MARCOS

2021
Chegada a Cascais
Dois meses de adaptação, primeiras aulas de português e a primeira refeição feita por mãos portuguesas.
2022
Primeiras páginas escritas
Comecei a guardar histórias no caderno preto que ainda uso. O mercado, as conversas com Dona Maria, o primeiro Inverno longe de casa.
2023
Mudança para o interior
Encontrei uma casa com quintal e oliveira. O silêncio das noites aqui é diferente. Comecei a cozinhar mais e a escrever menos sobre mim, mais sobre o que via à minha volta.
2025
Bozica nasce
Decidi reunir estas notas num espaço digital. Não para crescer, mas para ter um sítio onde as pessoas possam ler se quiserem. Sem algoritmos, sem pressa.