A minha estante de livros não é grande. Tem cerca de oitenta volumes, talvez noventa se contar os que estão empilhados no chão ao lado. Não é uma biblioteca para impressionar. É uma biblioteca que cresceu devagar, uma ou duas peças de cada vez, ao longo de cinco anos em Portugal.
O primeiro livro que comprei aqui foi um romance português antigo que encontrei numa feira de rua em Lisboa. Não entendia metade das palavras, mas gostei da capa e do cheiro do papel. Ainda está na prateleira de baixo, com as páginas um pouco amarelas.
Depois vieram os livros de cozinha. Não os grandes livros de fotografias bonitas. Os pequenos, com manchas de gordura nas páginas, que as pessoas usam de verdade. Um deles tem uma receita de bacalhau à Brás escrita à mão na contracapa por alguém que já não conheço.
Há também os livros que as pessoas me deram. A Dona Maria deu-me um livro de poemas de Fernando Pessoa. Disse que o neto dela tinha deixado lá e que ela não lia poesia. “Mas tu pareces alguém que lê”, disse ela. Guardei-o ao lado do romance antigo.
— Nota escrita depois de arrumar a estante
De vez em quando tiro um livro da estante e leio uma página ou duas, mesmo que já o tenha lido inteiro. É como voltar a uma casa onde se viveu há muito tempo. As coisas estão no mesmo sítio, mas a luz é diferente.
Não tenho uma ordem na estante. Os livros de cozinha estão misturados com os romances e com um livro antigo sobre oliveiras que comprei numa loja de usados. Gosto assim. Quando procuro algo, demoro mais tempo, e acabo por encontrar coisas que tinha esquecido que existiam.
A biblioteca mais interessante não é a que tem mais livros. É a que tem os livros certos para quem a olha. E os meus livros são certos para mim agora. Amanhã talvez sejam outros. Por isso a estante continua a crescer, devagar, uma peça de cada vez.