Hoje saí de casa sem saber para onde ia. Só sabia que queria andar. Pus as botas, o casaco azul que já tem manchas de terra, e fechei a porta. O céu estava limpo, o ar frio mas não cortante. Perfeito para caminhar.
Normalmente quando saio tenho um destino: o café da praça, o mercado, a casa da Dona Maria. Hoje não. Virei à direita na primeira rua e depois à esquerda na segunda. Segui o caminho que parecia mais interessante.
Encontrei uma rua estreita que nunca tinha visto. Tinha vasos de gerânios nas janelas e um gato preto deitado no capô de um carro velho. O gato olhou para mim como se eu fosse o intruso. Talvez fosse.
Mais à frente, uma mulher idosa estava a varrer a entrada de casa. Parou quando me viu e perguntou se eu era o americano que vivia perto da oliveira grande. Disse que sim. Ela sorriu e disse que a neta dela também tinha casado com um estrangeiro. “Ele era alemão”, disse ela. “Falava muito pouco português, mas comia bem.”
Continuámos a conversar mais cinco minutos. Ela contou que o alemão tinha morrido há três anos e que agora ela vivia sozinha com o gato. O gato era o alemão, disse ela a rir. “Teimoso e independente.”
— Nota no caderno, esta tarde
Continuei a andar. Encontrei um pequeno caminho de terra que saía da estrada principal. Segui-o. Chegou a um olival antigo com árvores retorcidas e baixas. Sentei-me num tronco caído e fiquei ali um bom bocado. O vento fazia as folhas das oliveiras fazerem um som como papel a ser amassado.
Quando voltei para casa, já era quase hora do pôr do sol. Tinha andado quase três horas. Não tinha tirado fotografias. Não tinha falado com mais ninguém além da senhora dos gerânios. Mas sentia-me como se tivesse estado em mais sítios do que em muitos dias em que “fiz” coisas.
Caminhar sem destino é uma forma de perder o controlo. E às vezes perder o controlo é exactamente o que se precisa.