BOZICA
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POR CARSON CLARK
28 DEZEMBRO 2025 Cozinha • Histórias

Receitas que a vizinha me ensinou

Dona Maria e o que ela me ensinou sobre cozinhar sem pressa.

Dona Maria tem setenta e oito anos e vive sozinha desde que o marido morreu. A casa dela fica mesmo ao lado da minha, separada apenas por um muro baixo de pedra. Quando cheguei à vila, ela foi a primeira pessoa que me convidou para entrar.

Na primeira vez que fui lá, ela estava a fazer sopa de legumes. O cheiro enchia toda a casa. Ela não me perguntou se eu queria ficar para comer. Simplesmente pôs mais um prato na mesa e disse “senta-te”. Comemos em silêncio quase total, só com o som da colher a raspar o fundo do prato e o rádio baixo a dar notícias antigas.

Depois disso, comecei a aparecer mais vezes. Não todos os dias. Duas ou três vezes por semana. Ela ensinou-me a fazer caldo verde da forma como a avó dela fazia: com couve cortada à mão, batata amassada com o garfo, e chouriço fatiado bem fino. “Não uses a máquina”, disse ela. “A máquina não sabe quando é que a couve está boa.”

Uma tarde ensinou-me a fazer arroz de pato. Não o arroz de pato de restaurante, mas o arroz de pato de casa: com o pato assado primeiro, depois desfiado, misturado com o arroz que cozinha no próprio molho. Demorou quase três horas. Em nenhum momento ela olhou para o relógio.

“A comida demora o tempo que tem de demorar. Se tiver pressa, fazes um sanduíche.”
— Dona Maria, numa tarde de Outubro

Agora, quando cozinho, penso nela. Quando corto os legumes, tento fazê-lo devagar, como ela me mostrou. Quando tempero, uso menos sal do que usaria antes. Ela sempre dizia que o sal esconde o sabor das coisas, não o melhora.

Há duas semanas ela deu-me uma receita escrita à mão num papel pautado antigo. Era da mãe dela. “Guarda isto”, disse. “Um dia podes querer fazer para alguém.”

Não sei se algum dia vou fazer essa receita para alguém. Mas guardei o papel na gaveta da cozinha, ao lado dos talheres. De vez em quando abro a gaveta só para ver a letra dela. É uma letra firme, inclinada para a direita, com os “t” cortados bem altos.

Cozinhar com Dona Maria ensinou-me mais do que receitas. Ensinou-me que a cozinha não é um lugar para fazer coisas rápido. É um lugar para estar. E que as melhores coisas que se comem são as que demoram tempo a chegar ao prato.

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