Acordei antes do sol nascer. O quarto ainda estava escuro, mas lá fora já se ouvia o primeiro carro a passar devagar na rua principal. Pus o casaco por cima do pijama, calcei as botas e saí. O ar da madrugada em Janeiro é cortante aqui no interior, mas limpo de uma forma que nunca senti nas cidades grandes.
O mercado da praça abre às sete. Quando cheguei, já havia luzes acesas dentro das barracas e o cheiro a pão quente saía do forno da padaria que fica mesmo ao lado. O peixeiro, o senhor António, estava a arrumar as caixas de sardinhas e robalos. Ele sempre me cumprimenta com um “Bom dia, americano” e um sorriso torto.
Passei primeiro pelas frutas. A senhora que vende laranjas e tangerinas tem uma voz rouca de quem fumou muitos cigarros ao longo da vida. Hoje estava a contar a outra vendedora que o neto tinha tirado nota máxima num exame de matemática. Falava alto, com orgulho, e eu ouvi tudo enquanto escolhia três laranjas grandes e uma rede de tangerinas.
Comprei também um molho de coentros frescos, dois tomates maduros que ainda cheiravam a planta, e um pedaço de queijo curado que o homem do queijo cortou à mão enquanto me perguntava se eu já tinha experimentado o queijo de ovelha da serra. Disse que não. Ele cortou um pedacinho extra e deu-me para provar. Era forte, quase picante, e derretia na língua.
— O homem do queijo, esta manhã
Quando cheguei ao peixe, o senhor António já tinha escolhido três sardinhas para mim sem eu pedir. “Para grelhar hoje à noite”, disse. “Estão frescas, saíram do mar ontem.” Paguei, meti tudo na mochila de pano que levo sempre, e sentei-me num banco de pedra que fica ao lado da fonte da praça.
Fiquei ali uns vinte minutos só a observar. As pessoas vão ao mercado como quem vai à igreja: com respeito e sem pressa. Cumprimentam-se, param para conversar, riem-se de coisas que eu não entendo completamente. Uma senhora idosa comprou flores e passou meia hora a escolher cada caule como se estivesse a escolher presentes para uma festa importante.
Quando voltei para casa, o sol já tinha subido. Pus a mochila na mesa da cozinha e comecei a arrumar as coisas. As laranjas numa tigela de barro, o queijo embrulhado num pano, os coentros num copo com água. As sardinhas guardei no frigorífico para mais tarde.
Não é sobre comprar comida. É sobre o tempo que se demora a escolher, as histórias que se ouvem sem procurar, e o facto de que, quando se volta para casa, a comida parece ter mais peso. Não porque é mais cara ou melhor. Porque tem nomes e rostos ligados a ela.
Amanhã de manhã volto. O senhor António prometeu-me que ia trazer linguado. E eu quero saber como é que a senhora das laranjas está com o neto depois do exame.