Hoje de manhã fiz algo que já faço há algum tempo: sentei-me na varanda com um café pequeno e não fiz mais nada durante quase quarenta minutos. Não tinha livro, não tinha telemóvel, não tinha lista de tarefas. Só a cadeira de madeira, o sol fraco de Janeiro e o som distante de um cão a ladrar na quinta ao lado.
No início foi estranho. A cabeça procurava algo para fazer. “Deves estar a desperdiçar tempo”, dizia uma voz lá dentro. Mas fiquei. E aos poucos essa voz foi ficando mais baixa.
Vi uma borboleta branca passar por cima dos vasos de alecrim. Reparei que uma das telhas do telhado vizinho está partida e que a luz do sol bate nela de forma diferente. Ouvi o vento nas oliveiras — um som seco, quase metálico. E percebi que o meu vizinho, o senhor Joaquim, já tinha posto a roupa a secar no varal. As camisolas dele são todas da mesma cor: azul escuro.
Quando voltei para dentro de casa, o dia já parecia diferente. Não porque tinha acontecido alguma coisa importante. Porque eu tinha dado espaço para nada acontecer.
— Nota escrita no caderno, hoje
Comecei a fazer estas pausas há cerca de dois anos. No início marcava-as no calendário como se fossem reuniões importantes. “Pausa das 10h30 às 11h10”. Depois percebi que isso era ridículo. Uma pausa marcada deixa de ser pausa.
Agora faço-as quando sinto que o dia está a ficar demasiado cheio de mim mesmo. Quando começo a responder aos emails com demasiada rapidez ou a limpar a cozinha como se fosse uma corrida. É nesses momentos que saio, sento-me, e deixo o tempo passar sem que eu o controle.
Não é meditação. Não é mindfulness. É só estar sentado sem objectivo. E o mais curioso é que, depois destas pausas, as coisas que eu tinha para fazer parecem menos urgentes. Ou talvez seja eu que fico menos urgente.
Hoje, enquanto estava na varanda, vi o carteiro passar de bicicleta. Ele sempre passa por volta das onze. Acenou-me com a mão livre. Eu acenei de volta. Foi a única conversa que tive durante toda a manhã. E foi suficiente.